
Único fotógrafo brasileiro a acompanhar o circuito mundial de tênis, Felipe Figueiredo, 38 anos, leva às quadras um olhar formado na moda em meio a uma mudança global na maneira de retratar atletas e competições
Uma fotografia de esporte precisa mostrar apenas a jogada? Cada vez menos. Em maio, a revista britânica Creative Review chamou atenção para uma transformação na fotografia esportiva internacional: marcas e veículos vêm buscando imagens que transitam entre performance, moda, documentário e cultura digital, indo além do registro tradicional de uma partida. É nesse cenário que o brasileiro Felipe Figueiredo desembarca novamente em Nova York para acompanhar o US Open, torneio disputado em agosto nos Estados Unidos. Ex-fotógrafo de moda e jornalista de formação, ele é hoje o único fotógrafo brasileiro a acompanhar integralmente o circuito mundial de tênis.
Neste ano, suas fotos foram destaque internacional na revista americana Time, em uma matéria que fez um perfil de Carlos Alcaraz. “Fiz as imagens no Australian Open 2026. As fotos são poéticas, não só esportivas ou documentais. Consegui encontrar um caminho com as sombras da quadra”, conta Felipe sobre as imagens que rodaram o mundo.
A relação de Felipe com o US Open, aliás, ajuda a explicar sua própria transformação profissional. Depois de trabalhar durante anos com moda, publicidade e eventos, ele teve a primeira experiência no esporte durante os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024. Na sequência, decidiu por conta própria seguir para Nova York e fotografar o torneio. Foi ali que registros de João Fonseca viralizaram nas redes sociais, chegaram à família do tenista e abriram caminho para trabalhos com empresas ligadas ao circuito. Desde então, passou por competições como Australian Open, Miami Open, Madrid Open, Roland Garros e Wimbledon.
Moda e tênis
Mas o que a moda muda quando a câmera está diante de uma quadra de tênis? Na prática, significa observar não apenas o instante em que a bola encontra a raquete, mas também luz, composição, roupa, textura, gestos e a atmosfera em torno do atleta. Em um ensaio feito no Armani Tennis Classic, por exemplo, Felipe explorou uma estética de inspiração analógica. Em outros trabalhos, registros de nomes como Carlos Alcaraz, Aryna Sabalenka e João Fonseca aproximam a fotografia esportiva de uma imagem que poderia estar tanto em uma cobertura de competição quanto em um editorial.
“Percebo que as marcas me procuram menos para reproduzir um padrão de fotografia esportiva e mais pelo meu olhar, o que tenho notado também com atletas que gostam do meu trabalho. A moda me ensinou a pensar composição, movimento, textura e personagem. Quando fui para o tênis, não abandonei isso. O desafio passou a ser usar essa linguagem sem perder o momento real e imprevisível que só o esporte oferece”, explica Figueiredo.
Essa transformação também aparece fora dos trabalhos comerciais. Com quase 60 mil seguidores no Instagram, Felipe compartilha bastidores dos torneios e registros que reproduzem essa mesma linguagem visual mais autoral, misturando fotografia profissional, conteúdo feito com celular e uma estética que aproxima esporte, moda e lifestyle. O perfil se tornou uma extensão do trabalho que realiza para marcas e atletas.Felipe já realizou trabalhos para empresas ligadas ao tênis como XP, PIF e Slyce, enquanto suas próprias imagens passaram a circular diretamente entre atletas e fãs.
Sabalenka compartilhou foto
Neste ano, uma foto sua feita durante o Miami Open foi compartilhada pela número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, e seu registro pessoal da virada histórica de João Fonseca sobre Novak Djokovic, em Roland Garros, viralizou nas redes, um dos momentos mais marcantes de sua trajetória até aqui. É um exemplo de como o registro deixa de servir apenas como documentação de uma partida e passa a fazer parte da maneira como o próprio atleta constrói e compartilha sua imagem.
A volta ao US Open, dois anos depois da viagem que iniciou essa mudança de carreira, fecha um ciclo e também coloca Felipe no centro dessa nova maneira de documentar o esporte. “O ponto decisivo continua sendo fundamental, mas hoje existe uma história muito maior acontecendo ao redor dele. O jeito como o atleta chega, espera, comemora, se veste, olha para a arquibancada. Quando a fotografia consegue mostrar tudo isso, o esporte deixa de ser apenas resultado e passa também a ser comportamento, estética e cultura”, completa.
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