
Viajar sem prejudicar o destino já não parece ser suficiente para uma parcela crescente dos turistas. O movimento agora é outro: fazer com que a própria viagem contribua para conservar ecossistemas, financiar projetos locais e fortalecer as comunidades que recebem os visitantes.
Dados ajudam a dimensionar essa mudança. Pesquisa da Booking.com mostra que 83% dos viajantes brasileiros querem que o dinheiro gasto durante suas viagens seja revertido para as comunidades locais, enquanto 82% procuram experiências autênticas e representativas da cultura do destino. O levantamento ouviu 32 mil viajantes em 34 países.
Entre os viajantes de luxo, o movimento também aparece de forma clara. Pesquisa da Virtuoso mostrou que 68% afirmaram que acontecimentos globais os estimularam a viajar de maneira mais responsável, ante 55% no ano anterior. Outros 59% disseram estar dispostos a gastar mais em viagens responsáveis desde que saibam como os recursos serão utilizados.
Para 2026, evitar destinos afetados pelo excesso de turistas aparece como o principal aspecto do turismo sustentável entre clientes da rede Virtuoso. Conservação da vida selvagem ocupa a segunda posição, enquanto apoiar comunidades locais e escolher empresas que empregam moradores do destino também estão entre as cinco principais prioridades. O levantamento ouviu mais de 2.400 consultores de viagens de luxo em mais de 50 países.
De causar menos impacto a deixar um impacto positivo
É nesse contexto que ganha espaço o chamado turismo regenerativo, abordagem que busca ir além da redução dos impactos negativos das viagens e transformar o turismo em fonte de recursos para conservação, recuperação ambiental e desenvolvimento das comunidades.
O tema já entrou na agenda das principais organizações mundiais do setor. No final de 2025, a Nature Positive Tourism Partnership, formada pelo World Travel & Tourism Council (WTTC), ONU Turismo e World Sustainable Hospitality Alliance, lançou uma orientação específica para empresas e destinos sobre como investir em proteção e restauração da natureza e estabelecer parcerias locais capazes de gerar resultados concretos.
Na hotelaria de luxo, uma das iniciativas recentes nessa direção é o Tomorrow Beckons, programa global criado pela Beckons para conectar seus lodges a projetos ambientais e comunitários nos destinos onde estão instalados, entre Austrália, Nova Zelândia, Chile e Canadá. Cada propriedade estabelece parceria com uma organização ambiental ou comunitária de sua região.
Em vez de concentrar os recursos em um fundo global distante dos destinos, o modelo foi desenhado para ser hiperlocal.
Na Ilha Kangaroo, na Austrália, hóspedes do Southern Ocean Lodge ajudam a financiar um projeto que instala abrigos especialmente desenvolvidos para filhotes ameaçados de leões-marinhos australianos em Seal Bay. Os abrigos oferecem proteção aos animais durante os primeiros meses de vida.
No Deserto do Atacama, no Chile, a iniciativa ligada ao Tierra Atacama apoia, em parceria com o Ministério da Educação chileno, uma escola técnica agrícola destinada a estudantes atacamenhos, com foco na formação de jovens da própria região.
Já no Clayoquot Wilderness Lodge, na Ilha de Vancouver, no Canadá, os recursos são destinados à Redd Fish Restoration Society, organização que atua na recuperação de habitats fluviais e na proteção das populações de salmões selvagens.
O hóspede entra na equação
Outro ponto que diferencia o modelo regenerativo é a tentativa de tornar o impacto da viagem mais visível para o próprio hóspede. No Tomorrow Beckons, o financiamento inclui uma contribuição voluntária equivalente a 1% do valor da estadia, além de recursos arrecadados em leilões e rifas promovidos pela empresa e aportes adicionais da própria Beckons. As equipes e os viajantes também podem participar de ações locais relacionadas à recuperação de habitats, educação ambiental e experiências culturais.
A transparência sobre a destinação dos recursos pode ser particularmente relevante para esse público. Na pesquisa da Virtuoso, 59% dos viajantes disseram aceitar pagar mais para viajar de forma responsável se souberem como o dinheiro adicional será utilizado.
O movimento sugere uma mudança importante para o turismo de luxo: conservação ambiental e apoio às comunidades deixam de aparecer apenas nos bastidores da operação dos hotéis e começam a fazer parte da própria proposta de viagem.
Mais do que perguntar se uma hospedagem reduz plástico, economiza água ou utiliza energia renovável, o viajante começa a fazer uma pergunta diferente: o que minha presença deixa para este lugar depois que eu vou embora?
Sobre a Beckons
A Beckons reúne lodges de luxo em destinos de natureza na Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Chile. O portfólio inclui Southern Ocean Lodge, Longitude 131°, Capella Lodge, Silky Oaks Lodge e The Louise, na Austrália; Huka Lodge, na Nova Zelândia; Clayoquot Wilderness Lodge, no Canadá; e Tierra Atacama e Tierra Patagonia, no Chile. A marca adota uma abordagem de turismo regenerativo voltada à conservação das paisagens, da vida selvagem e das comunidades onde suas propriedades estão inseridas.
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